Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Vem à Janela

Vem à Janela

25
Mar22

Costuras e Pad Thai

Carolina Novo

276944776_2749696778669210_4323799457774109955_n.j

Depois de três voltas aos arredores daquele que seria o local do repasto, estacionei. Já entre suspiros de mal dizer desta Lisboa que se apresenta caótica e lotada nas matérias de trânsito e estacionar, vejo-te de bota na calçada, guarda chuva para protecção máxima deste São Pedro traiçoeiro e já o vejo iluminado, ao longe. Quanto tempo sem te ver, sem me sentar nas tuas cadeiras de madeira e me deixar repousar envolta na tua atmosfera de luminosidade quanto baste, onde as velas dispostas sobre as mesas dão conta do convite meio intimista que nos fazes. Fomos matar saudades. Das pessoas e dos paladares. Da amizade que nos temos e nos junta a cada visita à cidade, das conversas e de sabermos de nós. E por entre uma selecta lista de pratos variados, com cuidados informativos para celíacos, vegetarianos e vegan, saltito do Pad Thai ao Caril Laksa, na certeza de que uma dose de badjias e de chamuças já têm lugar cativo naquela mesinha com vista para o jardim. Mesmo que ao cair da noite pouco se veja, nem só pelo paladar me espanto sempre que regresso. Opto pelo Pad Thai, pousando a ementa sobre a mesa. Dois chás da casa, outro a gosto. Envolvidos nas novidades, falamos dos dias e da vida. Entre goles da bebida quente que nos aquece as bocas, soltamos gargalhadas sonoras já tão antigas na semelhança do trato e da cumplicidade de sempre. Reconforta-se o estômago e o conforto estende-se à alma! Recordas que a distância pouco vinga quando nas linhas em que a amizade se cose pouco há que remendar. E findas as entradas, preparam-se os sentidos para o prato principal. E eis que num aplauso eufórico, as papilas gustativas aprovam a chegada dos múltiplos sabores que trazem à lembrança o gosto que tenho na vontade de voltar, ainda longe de terminar a visita. O doce num abraço terno ao salgado, culminando numa supresa de um picante vincado que, para meu espanto, pouco me limitou em levar a degustação à última garfada. E a conversa fluía, das palavras aos golinhos de chá para aligeirar a leve dormência da língua. Recostamo-nos nas cadeiras, pousando os talheres. Das boas vindas à mousse de chocolate para encerramento. Absolutamente maravilhoso!, este Psi a dois passinhos daqui.

E eu, que não vejo a hora de me voltar a sentar, de frente para aquele jardim, em tão boa companhia como esta, costurando a amizade.

21
Mar22

Um breve regresso ao que já não é

Carolina Novo

Nunca mais lá tinha ido. Àquele lugar de onde guardo umas quantas boas recordações de conversas, gargalhadas, cumprimentos apressados entre os afezeres de cada um, os rostos cansados de tantos outros e a arrogância dos que se tinham por melhores e superiores nos títulos por que se apresentavam, sempre que chegavam. Recordo o som das chávenas sobre os pires ainda quentes saídos da máquina que fumegava, as tostas mistas feitas com cautela e pedidos extra por alguns dos que se achavam nos egos pujantes que tinham. As palavras trocadas na ausência das filas nas horas de ponta, os conselhos apontados na ponta da língua, largados à mínima falha que contrariasse o perfeccionismo dos mais antigos, prata da casa. Ontem, num regresso saudoso ao espaço que partilhámos, revi-te e todas aquelas memórias voltaram por breves minutos. Cumprimentamo-nos em poucas palavras e sorrisos de quem não se vê há um bom par de anos. Passaram-se tantas coisas e tantas outras se confirmaram. Senti a ausência da adrenalina daqueles dias, contrastante com a calma e piada constante com que nos acompanhava. Quantos rostos não vi, julgando-os lá, onde os deixara. Eu estava diferente. Mas o tempo, esse sacana sem lei, também fez por se sentir em ti.

Gostei de te rever mas recordo-te sem te querer viver de novo. Tanta coisa mudou.

17
Mar22

De olhar pela cidade

Carolina Novo

Tenho um gosto particular por me passear pelas ruas, seja de onde for, e observar quem por mim passa. Com quem o meu olhar se cruza e tantas vezes pára, admirado. Sentar-me numa mesa de um café e conceber-me uns minutos que sejam sobre alguém que conversa, alguém que se demora nas páginas de um livro, um jornal que seja, ou a alguém que se dedica, por tempo indeterminado, a dois dedos de conversa boa no balcão da padaria. Aquela de esquina onde também eu, de vez em quando, paro nesse mesmo balcão para comprar quatro bolachinhas com pepitas de chocolate. Sabe-me bem olhar para as pessoas e imaginar as suas histórias e as minhas histórias tendo-as por inspiração constante. A forma como seguram num cigarro e o fumam pausadamente apreciando a paisagem citadina, os carros que circulam apressados, vagarosos também, parando para um breve aceno aos rostos conhecidos. As crianças, pelas mãos dos mais velhos, que saiam a conta gotas da escola na rua sem saída. Um alvoroso de vozes e sorrisos e protestos tantas vezes naquele portão. Gosto particularmente quando me passeio pela baixa da cidade, longe do curso habitual dos meus dias, e a minha inspiração tem tonalidades variadas. Ruas repletas de turistas, sotaques vários, tons de pele, de cabelo e de olhos também que contrastam com o que os meus se habituaram a ver pelas ruas da minha Lisboa. As lojas da Augusta, os cafés da Garrett, o eléctrico que passa e que, se falasse, tantas histórias contaria! subo ao Largo Camões e vejo o Tejo, ao fundo da rua do Alecrim. Recordo, por breves instantes, o meu tempo de estudante. Sorrio e desço a rua, em direcção ao rio. Hei-de me sentar na Ribeira das Naus e inspirar-me nos que passam de mão dada, nos que partilham duas cervejas ao final de um dia cansado, nos que se passeiam de bicicleta, empoleirados numa trotinete do Terreiro do Paço ao Cais do Sodré. Naqueles que pura e simplesmente apreciam a vista para a outra margem, deixando-se estar ali, com os olhos postos nas águas que se agitam à passagem dos barcos.

Tenho um gosto particular em me deixar estar também e contemplar a vida da cidade de Lisboa.

Ou outra que me prenda o olhar tanto como ela, querida cidade.

12
Mar22

Dias demorados

Carolina Novo

Volto àquela rua que nos recebeu, de surpresa. Onde as manhãs muitas vezes se demoravam, os pequenos almoços queriam-se tardios e acompanhados por uma música calma, como os dias de chuva. Recordo os dias de tons cinzentos, de pantufas nos pés, os cheiros das ervas aromáticas, o queijo que derretia, lentamente, sobre o tabuleiro. O borbulhar da polpa de tomate caseira, miminho da mãe, e os ingredientes que se envolviam e nos faziam crescer água na boca, ansiosos pelo partilhar da refeição. Entertinhamo-nos com um filme dos tantos que coleccionávamos para ver enquanto a pizza ganhava consistência. Havia dias que arriscávamos nas pipocas até para acompanhamento! Volto a esses dias preguiçosos e ao cheiro do incenso que ardia, vagaroso, tal como nós, misturado com os múltiplos chás que fazíamos. A nossa casa repleta de aromas variados. Volto a esses dias, esses meses felizes com nostalgia. Mudámos de rua, mas nunca no vagar com que nos dedicamos. Bebo um gole de chá e ouço o jazz enquanto chove lá fora. 

07
Mar22

Primeiro as senhoras

Carolina Novo

“ Primeiro as senhoras!”, disse-me, baixando levemente a cabeça, dando-me prioridade à passagem. Ele, novamente. O mesmo chapéu escuro de todas as noites cobria-lhe o rosto, reservando-lhe a identidade. Era alto, elegante e vestia uma camisa impecavelmente engomada que lhe assentava tão bem. Na boca, um cigarro. Acompanhei-lhe o andar confiante. Parou no balcão, como sempre. Do bolso das calças que trazia ergueu a mão mais bonita que já vira e fez sinal ao garçon. Um gin. Entre o sorver da bebida, uma passa no cigarro pendente entre os dedos esguios. Observo-o, contemplo-o, fixando-lhe todos os pormenores que a luz baixa me permite. Quero saber-lhe o nome. Sentir-lhe o cheiro da pele, do perfume. Quero ouvir-lhe a melodia das palavras na voz grave que tem. Quero-o.

Cruzo e descruzo as pernas, nervosa. Quero que note em mim. Olho a noite escura. De fundo o murmurinho das conversas, os cheiros das fragrâncias que se misturam. As luzes baixam. Silêncio. Ouvem-se os primeiros acordes do acordeon. Vejo-o, nos passos graciosos com que se move. Uma mulher morena, de vestido vermelho levanta-se e ele olha na sua direcção. Estende-lhe a mão e recebe-a nos seus braços, afagando-lhe o rosto próximo do seu. Ciúmes. Sinto ciúmes como se fosse meu. Juntos, são um só e dançam como se flutuassem. Num gesto tão delicado ele segura-a, olhos nos olhos. A música termina. Afastam-se.

O garçon aproxima-se. Sobre a minha mesa, um gin. Um bilhete perfumado. As palavras dele.

A mulher morena sai. E eu também.

Sobre mim

foto do autor

Pesquisar

Sigam-me

Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Carolina Novo

    Muito obrigada pelas palavras Sandra! É sempre tão...

  • Sandra

    Adorei esta partilha, senti-me a passear pelas rua...

  • Carolina Novo

    Sem dúvida Francisca!A muitos dias desses!

  • apenas fluir

    São esses dias que preenchem a alma! Beijinhos

  • Carolina Novo

    Fico muito feliz por ler as tuas palavras Maria! m...

Arquivo

    1. 2022
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2021
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2020
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
Em destaque no SAPO Blogs
pub