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Vem à Janela

Vem à Janela

28
Fev22

Domingo na Luz

Carolina Novo

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E se fôssemos ver o Benfica à Luz?, disse-me já passava das onze. Julguei que fosse do sono, um saudosismo repentino que lhe dera pelas ruas de Lisboa por onde caminhávamos, os três. Para minha surpresa, voltou a lançar a proposta sobre a mesa. Aceitei, sem mais demoras! O final de tarde de domingo seria diferente. Seria na Luz!

Éramos quatro, mas as sacanas das alergias desta metereologia indecisa com que andamos resolveram trocar-nos as voltas. Passámos a três. Tirámos o pó aos cachecóis e de emblema debruçado sob o peito, fizemo-nos ao estádio. Ainda mal acreditava no que estava a acontecer, confesso. Ir ao estádio da luz com o meu pai era quase que um regressar à infância, à sensação de ser pequenino e de tudo parecer enorme. É um recordar das tantas vezes que ficava eufórica quando me levava pela mão para ver o glorioso. É muito mais do que uma ida ao futebol, o vibrar com os cânticos em uníssono pela claque daquele que me é querido desde cedo. Vai para além do salto, gritando um tão ansiado "Golo!!" por cada remate certeiro à baliza do adversário ou do olhar baixo na perda de oportunidades. É a oportunidade, sim, de voltar ali, pela mesma mão de sempre. O partilhar noventa minutos de um domingo que se julgava comum a tantos outros e matar saudades de erguer as mãos ao alto, juntos, numa alegria imensa, rindo até de quem protesta ao lance mal marcado, à falta por sinalizar. Voltar à Catedral, como fervorosamente lhe chamam, é recordar uma felicidade genuína de criança, sentir uma emoção que não se explica, que só se agradece.

De olhos postos, presos naqueles truques e fintas, vi o nosso Benfica fazer bonito, num número perfeito. Vi o elevar das bandeiras, agitando-se, bem alto, envoltas numa maré de cachecois irrequietos, por entre as vozes que não se calam. Deixei que a emoção tomasse conta de mim, à flor da pele sentida, ao ver num gesto a solidariedade de um povo, as cores do azul e amarelo polvilharem as bancadas e a plateia de pé num aplauso dedicado. Porque não nos toca na pele mas toca-nos, a cada dia que passa, na alma.

Este domingo fui à Luz em família, de coração quente. E naquele instante de noventa minutos fui imensamente feliz.

24
Fev22

A Lanchonete, por acaso

Carolina Novo

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Deu-se o acaso de passar naquela rua e da curiosidade a levar além daquilo a que se tinha proposto fazer. Ia só comprar uma folha para um pedido especial, uma aguarela feita à medida e com toda a dedicação. E os minutos, esses malandros, quiseram que fizesse tempo até que as portas da loja predilecta se abrissem a público. Prolongou-se pela calçada que ditava o destino, porta adentro sem hesitação, por entre aquele novo espaço que abrira e lhe abrira o apetite por se sentar numa mesinha e percorrer com o olhar a ementa entre os doces e os salgados. A Lanchonete, apresentava-se assim. Pouco se demorou na escolha, assim que o viu, com vista privilegiada para a rua, sorrindo a quem passa. Numa redona de vidro, junto à máquina do café e aos brigadeiros e beijinhos, pequeninos de estatura, compactos no sabor original, lá estava ele. Sorriu e fez o pedido, batendo o pezinho discreto ao som da música ambiente, recordando o sotaque que lhe ficava inevitavelmente no ouvido, todos os dias. Sorriu ainda mais, com os lábios e o coração também. 

E os olhos brilharam, sem discrição alguma, levando-o cuidadosamente para uma mesinha. Aquele bolo de cenoura e brigadeiro cumpria com aquilo que, sem saber, fez por precisar naquele momento. Ao tempo que se imaginara ali. Finalmente. E na primeira garfada soube que o destino fora certeiro e carinhoso. Aquele bolo estava absolutamente maravilhoso! Entre sorrisos, num silêncio contemplativo e de verdadeiro deleite, deu duas mãos cheias de garfadas, lentas, e deu por encerrado o banquete. Quis pedir outra, sim! Mas, se por acaso ou por decisão prévia a coisa se der, sabe que pouca distância haverá entre esta e a próxima vinda. Saiu, de coração quentinho.

23
Fev22

Histórias de café

Carolina Novo

Sentou-se na mesa do café, pousando a mala na cadeira mesmo ao seu lado. Acordara sonolenta, preguiçosa nos gestos, nas palavras também. Nas mesas vizinhas poucas pessoas se viam. Um senhor que sorvia uma meia de leite intercalada com pequenas dentadas numa torrada, pão saloio por escolha, enquando folheava concentrado as páginas de um jornal. Duas mesas à sua frente, uma rapariga que aparentava ter os seus vinte e poucos anos olhava o movimento de mais uma manhã que chegava. Na mão, uma pequena chávena de café que bebia em pequenos golos, consultando de onde em onde o ecrã do telemóvel. Parecia ansiosa. Deixou-se estar, recostando-se na cadeira. Passou a mão pelo cabelo ainda húmido. No ar, um cheiro de pão torrado e café acabado de tirar abriam-lhe o apetite. Um chá, meia torrada e um livro sobre a mesa que tirara num gesto rápido do interior da sua mala. Que a leitura do costume não se tomasse por vencida pelo sono das primeiras horas da manhã. Para ela, todos os dias começavam por palavras. Se não faladas, que lidas numas quantas páginas que a faziam imaginar personagens, cenários vários, sentindo-se parte duma história que não era a sua. Sob a mesa, um chá fumegava e cuidadosamente, sem desviar a atenção do que lia, dava o primeiro gole, presa pelos diálogos e as descrições. Há histórias que nos prendem a atenção e os sentidos também. Por momentos, parecia-lhe sentir os cheiros para lá das palavras, o tom das vozes de quem conversava, se conhecia ou se reencontrava no tempo que aquele livro lhe oferecia. E sem desviar o olhar, comia a torrada, no seu tempo.

Pelos passeios, havia quem se passeasse sonolento. Outros que, de passo acelerado, não tinham tempo a perder. Ouvia-se o murmúrio de quem, no seu vagar, se demorava em conversas estendendo-as à mesa do café servido em chávena escaldada. A conta, por favor. Terminou o chá e a torrada também. Só a leitura merecia que o tempo não tivesse fim. Estava com tempo.

20
Fev22

Cidade Vermelha

Carolina Novo

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Viajar é apurar todos os sentidos. É abrir os olhos, fazer por quantas menos vezes pestanejar, não vá o olhar perder pitada de tudo o que à nossa frente nos é oferecido a degustar, a sorver. Fazer as malas, por um dia, uma noite que seja, é apressarmo-nos, selectos, na escolha das roupas e demorarmo-nos nas paisagens, nos paladares variados, nos cheiros que nos acordam os narizes tantas vezes adormecidos pela monotonia dos dias, demorarmo-nos nas gentes. É deixar que o silêncio, as emoções falem quando as palavras não têm por que ser ditas. É aproveitar cada segundo, não nos perdermos nas mesquinhices dos egos e fazer valer a pena. Ainda trago na boca o gosto dos sabores diferentes, que me impressionavam o palato, entre sons e cores e texturas daquela Cidade Vermelha que em tudo se fez inigualável. Os odores intensos das ruas, o quente do ar que nos fazias festinhas leves na pele morena, nos cabelos soltos sob os ombros nus. Ali tirávamos o vestuário de verão do descanso de meses nas gavetas, arrumado por tons e feitios. Naquele lugar, os olhares acompanhavam-nos à passagem daqueles que viam em nós os traços e a língua duma Europa já ali adiante mas em costumes tão diferente, tão distante.

Na praça mais vibrante e emblemática da cidade, Jemaa El Fna fazia-se imensa entre labirintos de tendas, animais exóticos e o regatear do comércio local. Estávamos em Marraquexe e os sentidos queriam-se atentos. Recordo aquele final de tarde, naquela varanda debruçada sob o caos ímpar da cidade. Os sons que se atropelavam entre músicas e vozes e pequenos suspiros de prazer pelo pôr do sol que se punha ali mesmo, à nossa frente. E o tempo pareceu parar. Duas águas sobre a mesa e o céu imenso de tons quentes que nos convidava a ficar. Era o último dia dos cinco tão bem passados e consumidos à exaustão pela Marraquexe intensa de cheiros, imensa de gentes, num regresso que se quer tanto.

19
Fev22

Aquele cantinho

Carolina Novo

Daquela varanda, a vista de mar. A pequena capelinha caiada de branco, um cheiro de velas acabadas de acender em promessas, em agradecimentos a Santa Filomena. Recorda-me a infância e o gosto particular que tinha de as ver arder, lentamente, e de lhes sentir o odor que me transportava para os dias de festa, os aniversários ao longo dos meses. Costumava sentar-me com ela naquele banquinho de frente para a portinha de madeira e conversávamos. Conversas ingénuas, tolas talvez, assuntos vividos à flor da pele, à flor da juventude de crianças que eramos. Os anos passados, os fins de semana em que deixava para trás a cidade e a euforia era imensa assim que entrava naquela rua sem saída. Ali, saíamos a todas as horas, todas as noites, em brincadeiras, em tardes de praia e mergulhos de mar gelado, salgado, até que os dedos se nos enrugassem, até que as mães nos oferecessem em troca a tão esperada hora do lanche. O cheirinho do pão da padaria cuidadosamente embrulhado, os suminhos de pacote que nos adoçavam as bocas salgadas. A pele enchia-se de areia mas nunca de sol. Queriamos sempre mais uns minutinhos naquela praia que tinhamos como nossa. Ao final do dia, de corpo cansado, olhávamos o areal quase deserto, lá em baixo. Do largo ponto de encontro para tantos, despediamo-nos de mais um dia num pôr do sol sem igual. Ali, naquele nosso cantinho especial do mundo o tempo demorava-se e ser criança era ser-se verdadeiramente feliz. Ela foi para a Suíça, eu fiquei. Ambas crescemos, numa distância que se encurta sempre que regresso àquela praia, àquele mar, àquela rua tão cheia de nós e da nossa amizade boa.

Daquela varanda, a vista de mar, onde, de quando em vez, barquinhos salpicam a paisagem. A ilha, acolá, ao longe.

Estou na cidade, cheia de saudades do campo.

 

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Comentários recentes

  • Carolina Novo

    Muito obrigada pelas palavras Sandra! É sempre tão...

  • Sandra

    Adorei esta partilha, senti-me a passear pelas rua...

  • Carolina Novo

    Sem dúvida Francisca!A muitos dias desses!

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  • Carolina Novo

    Fico muito feliz por ler as tuas palavras Maria! m...

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