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Vem à Janela

Vem à Janela

29
Jan22

Madrugar entre páginas

Carolina Novo

Deitara-me com a intenção maior de fazer da manhã de sábado um retomar da arte de caminhar, sem pressa. Sem o desassossego da semana que findara, um alvoroço pegado de prioridades, todas elas frisando o nome que lhes damos, prioritárias. Tudo parecia importante, tudo parecia absorver de mim toda atenção de que dispunha, não dispondo assim de atenção para mim mesma. Não a tomarei como exemplo para levar as semanas, os dias ou a vida tão pouco. Há que saber abrandar e hoje, o nascer do dia seria assim. Corro os estores e, de olhos ainda preguiçosos, contemplo os primeiros raios de sol e as primeiras árvores que se agitam aos ventos de 9ºC que dita a metereologia. Suspiro, fitando-o com o olhar. Sob a cabeceira, o "Antes que o café arrefeça" ainda repousa. Estou a poucas páginas de terminar aquele que se demorou a conquistar-me, a convencer-me a que o folheasse além das páginas iniciais. Por duas vezes não passei das dez, fechando-o, adiando a mensagem que traz a quem se permite a deixar-se levar pelo que conta. Regressei aos lençóis ainda quentes, cobrindo-me. E enquanto a brisa fresca da manhã agitava as árvores ainda sonolentas, enquanto se viam os primeiros carros surgirem na estrada, enquanto os cafés, as lojas e os parques se enchiam dos madrugadores, eu lia. Devorada cada página, sorvia cada palavra e mergulhava naquela imensidão de significados. E antes que o café arrefecesse, terminei-o e agradeci, num obrigado sentido, pela caminhada e pela aprendizagem.

Valeu a pena, valeu tanto a pena. E recomendo o percurso.

13
Jan22

Pôr do sol

Carolina Novo

Depois de tantos dias em casa, finalmente revejo as ruas, agora de perto. Ouço as vozes dos que por mim passam, deixo-me envolver nos cheiros citadinos desta Lisboa de Janeiro. Recordo a última saída, naquele primeiro dia do ano. Percorrera a marginal de carro, janela entreaberta, para que o ar não se cansasse de mim e eu dele. A brisa que se fazia sentir pedia que me aconchegasse, agitando-me alguns dos cabelos soltos que me batiam levemente no rosto. As águas, de um azul imenso, de rio passavam a mar, a oceano mais adiante, sem que os meus olhos se cansassem de as ver e contemplar. Que bom começar o ano assim, com vistas bonitas. A estrada enchia-se de outros tantos sedentos, como eu, de liberdade, de sol na pele já pálida pelos meses de frio com a chegada do inverno. Admiravam a paisagem, as pessoas que passavam, caminhantes, pelos passeios, os que corriam dando início a mais um ano sem descurar o cuidado com o físico. Sentada no carro, fazia a digestão de uns petiscos de marisco para primeira refeição dos trezentos e sessenta e cinco dias que chegavam. Pousava os olhos aqui e ali, locais de passagem por onde o tempo passara deixando apenas meras recordações do que foi. Prendem-me a atenção os corajosos que no primeiro pedaço de praia se aventuram mar adentro. Abraço o meu casaco, sinto um arrepio só de os ver ali, pele ao descoberto, imersos nas ondas, rostos ao sol, sorridentes. Sorrio também, avançando na marcha lenta pela marginal. À frente, Carcavelos e as primeiras ondas do ano, os mesmos surfistas de sempre. No areal, pequenos grupos aqui e ali, sentados, contemplam-nos, alimentando conversas que se hão-de estender até que o sol se ponho. Passo por Cascais mas tenho pressa. De chegar ao Guincho e sair do carro. Sentir o fresco do vento que agita tudo à sua passagem, de sentir as bochechas do rosto arrefecem. De aproveitar cada minuto daquele sol que se põe à minha frente como um presente, sem que o tenha pedido ou planeado. Aconteceu e foi absolutamente maravilhoso. Nesse dia regressei a casa, agradecida e feliz.

Hoje aconteceu-me exactamente o mesmo. Foi como um pôr do sol, rever as ruas e sentir Lisboa.

12
Jan22

Pausa

Carolina Novo

Sob o fogão, um púcaro onde, em lume baixo, a bebida de arroz aquece lentamente. Na caneca, coloco cuidadosamente uma porção de pimenta preta, outra de açafrão das índias ou, se assim lhe quisermos chamar, curcuma. Cai, manchando a porcelana de tonalidades amarelas. Lembro-me de Marrocos e as suas cores quentes, vibrantes e os seus cheiros densos e intensos. Corto um pedacinho de gengibre. Pouco mais do equivalente ao meu dedo mindinho, digamos assim. E descasco-o, passando o por água. Por entre os diversos utensílios de cozinha - tesoura, descascador de cenouras, passador, um ralador. O ralador. Com cautela para que não rale mais do que o gengibre, deslizo, atenta, o pedacinho que se desfaz, juntando-se ao pó da cor do sol, às partículas pequeninas, negras, da pimenta. Dirijo-me à bancada atrás de mim, à primeira gaveta que os meus olhos encontram e, com a mão direita, retiro uma coler, as de chá. Na outra, um frasco de vidro que me permite ver que pouco ficará para quem depois de mim precise de adoçar a boca. Uma colher de mel, generosa. E sob o lume brando, a bebida vegetal já acusa início de fervura. Retiro-a, com a ajuda de uma pega para que não me queime e verto-a, fumegante. Com a outra mão misturo os sabores que se agitam. Na prateleira um pouco acima da linha dos meus olhos, frasquinhos de especiarias. Com um gesto, sirvo-me de canela em pó, quanto baste. E a cozinha enche-se de aromas. Apago a luz atrás de mim e dou o primeiro gole, dirigindo-me para o corredor.

Tenho uma história para continuar e as palavras não esperam.

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Comentários recentes

  • Carolina Novo

    Muito obrigada pelas palavras Sandra! É sempre tão...

  • Sandra

    Adorei esta partilha, senti-me a passear pelas rua...

  • Carolina Novo

    Sem dúvida Francisca!A muitos dias desses!

  • apenas fluir

    São esses dias que preenchem a alma! Beijinhos

  • Carolina Novo

    Fico muito feliz por ler as tuas palavras Maria! m...

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