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Vem à Janela

Vem à Janela

26
Fev21

Atualizações do que lá vem

Carolina Novo

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Ontem foi dia de rever a condução, por-me a teste no ato de manter o volante na direção certa, o pé no acelerador (com cautela!) e andar numa jigajoga automática da primeira para a segunda passando de mansinho para a terceira mas sem nunca passar as mãos pela quarta. Moderação que o posto de abastecimento é a dois passos, coisa pouca. Num deslize súbtil e desaparece-me uns quantos euros do cartão. "Olha, que já dava para ir a Aveiro matar saudades dos ovos moles..." mas não, que tenho prioridades. E a prioridade é: a marcha lenta para ir ao supermercado, post-it apontadinho para que não me falhe nada e uma dose de paciência, persistência, ponderação e polimento verbal também. Esta maravilha das filas que se prolongam pela calçada, que maravilha! E ainda há quem, na falta de um aconchego, um calorzinho talvez, se atreva a vir-me cheirar o champoo e o perfume (channel Nº5! Querias....), hã! Isto é que é uma vida, irra! Esta insistência nos toques, nos afetos e nas contra ordenações num não cumprimento da distância, as caretas que ainda se fazem, os reviranços de olhos e suspiros pronfundos. E se a pessoa for na base da boa educação para pedir um jeitinho, meia dúzia de olhadelas depois para ver se o indivíduo desperta para os protocolos dos tempos de agora? "Queres ver que me vou chatear na fila do pão? Eu que vinha tão contententinho, que amanhã já é sexta e é dia de pedir Joshua's Shoarma pela glovo...", seguido de pequenos monólogos. O que me vale, o que me vale é o apoio moral nos abanos de cabeça, em solidariedade para comigo, compreensivos, do conjuntinho de mascarados que segue atrás de mim. Ultrapassadas as divergências, apresso-me num regresso à viatura. Apresso-me, conforme das possibilidades. Que a pessoa quando vai ao mercado, entra na postura certa, cheia de energia, e para lá do tapete rolante é um quebra cabeças para dar conta da sacaria toda com que vem. 

Já estou no carro, em segunda, ouvido atento na M80 que me presenteia com o "Gato Esteves" no seu Wild World que me leva aos tempos em que, mesmo que um nadinha selvagem, a rapaziada que por cá anda dava conta dos pandemónios, das zaragatas e confinava-se em casa em festas de pijama, noitadas de bingo caseiro, poker a feijões. E da minha janela, habitualmente aberta para desconfinar os ares cansados da casa, desconfinava a música, as gargalhadas e cumplicidade nas palavras, à mesinha posta para mais uma jantarada. A Vanessa Cristina não tinha mãos a medir de agenda lotada, o Marco António da churrasqueira marcava passo na grelha pela enchente faminta que lhe aparecia pelo meio dia, a Zaida Tremoço animada recomendava os melhores produtos "Leve aquele, à confiança menina! Aquele xuxu é da horta do meu Quim, é do bom!".

Atento o ouvido para o que lá vem. São mais duas semanas de paparoca caseira, jogging de soalho, parlapiê debruçada na janela virtual, de mensagens de voz para dar um maior aconchego, de visitas pontuais do Jefferson, de ânsias pelo pilates do Palmito. Até da Paçoca e da Mamangava o meu coração palpita de saudade!

Continuemos na segurança dos Body Pump caseiros, a deixar fluir e nascer a padeira e a cozinheira de topo que há em nós (outrora confinada de tão escondida), os brindes, as garrafas de tinto por zoom e dos afetos virtuais. 

É sexta feira e ir à janela ver o Juvenaldo chegar de mota e trazer-me a marmita, é um privilégio e uma gratidão também! (E quando ele sorri? É quase ao nível do Robson...)

Carolina Novo

25
Fev21

Pilates com o Palmito

Carolina Novo

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Ainda de outfit nocturno, eis que me abrem os apetites para me lançar, de cabeça, em modalidades não praticadas faz tempo (Desde o 1º confinamento, vejam lá!). Ainda o chá não tinha fervido e acabo eu de mordiscar a segunda metade de pão crocante e todas as atenções e vontades se voltavam para a bendita da meditação. Não contrariando o que o corpinho e a mente nos pedem, lá fui eu, pernas à chinês na carpete da sala. Acendo o incenso "tropical flower" e dou preferência aos alongamentos, para iniciar.

Tenho a ideia de que as mãos já tocam a textura macia da carpete, pernas bem esticadas, cabeça recolhida. De repente, vem-me à lembrança as aulas de pilates do Jerson Palmito. Aquilo é que era um instrutor, nos tempos em que desconfinávamos. Desconfinávamos os músculos, as tensões e os suspiros também. Que isto no pilates é atividade que pede esforço e dedicação, quanta dedicação!

Era uma competição no abarbatar de poiso nas primeiras filas, ele no comando, pois claro. Poucas eram as que faltavam ao encontro, hora marcada certinha, nem mais nem menos. Se fossem menos, tanto melhor! Que as vistas ficavam mais desafogadas e compreendiam-se melhor as posturas. As posturas mais descaradas eram as da Fabiana Paçoca, posicionada ao ataque na segunda fila, diagonal com o instrutor Palmito. Carrapito aí com um palmo de altura, top licra (justinho, justinho) e uma calça, "adidas" escrito ao comprimento da coxa à canela, lá ia ela, com jogo de cintura. Cinturinha bem definida, sim senhora! Tudo genética! E à base de saladas, barrinhas da Prozis, sumos detox pela manhã e o Pump às quintas, com a Débora Cristiana. A Paçoca era aluna assídua, nas aulas e nas apreciações. Deitava o olho azul ao peitoral do Palmito e dizia ter dúvidas nas posturas. Precisava de mãos e ajustes, não fosse por fora do lugar aquilo que devia estar direitinho. Tinha toda a razão! Que isto do pilates é assunto sério de nos mantermos na postura certa. "Estou na postura certa, estou?", sussurrava a Octávia Mamangava duas filas atrás de mim. Legging justa, camisolão largo, nem a fita multicolor lhe compunha o cabelo farto aquando do agachamento mãozinhas delicadas ao chão, três vezes. E nas pranchas? Nas pranchas frente frente com o Palmito e o espelho ponta a ponta da parede em frente é que era o bonito! O dinheirão nas cabeleireiras no dia anterior para estar impecável, os carrapitos já murchos pendendo para onde lhes apetecesse, as fitas nos cabelos oleosos, suados e o vermelhão nas faces, ora sorridentes, ora em preces de olhar no colchão. Entre ais e uis, as cabeças num instante se erguiam, que ver o Palmito...(suspiravam), dava alento à continuidade do ferver do abdominal! Que saudades!

Suspiro agora eu, sem Palmito que me acrescente força e ânimo à causa, de rosetas aos pares que me fervem o rosto, cabelo suado que se me cola à pele. Ai que dá para aqui um fanico! Pois antes que dê, pondero ter (ou não!) capacidade para cruzar os presuntinhos à chinês, focar-me no entra e sai deste ar fresco que me entra pela janela e imaginar-me de olhar posto no horizonte ( Como é que estará o mar na Fonte da Telha? Foge-me o pensamento para ali....).

Inspiro, expiro. Inspiro, expiro. Repito. E ouço-a, zumbir. Juntam-se mais duas! E eu olho as vistas da minha janela, suspirando! Palmito, Palmito....com que postura fico?

O incenso já ardeu e eu que não há meio de meditar, neste querido confinamento.

Carolina Novo

 

 

 

24
Fev21

Confraternização digital

Carolina Novo

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Já tenho a comida ao lume mas, em passo de pantufa silenciosa, acomodei o traseiro no banquinho que ainda resiste nas suas três perninhas finas de aparente fragilidade e quis partilhar. Apeteceu-me a cosquice de parapeito de janela para abordar a seguinte temática: as reuniões zoom! Mas que maravilha! Que patanistas com arroz de feijão, feijoada à transmontana ou migas com plumas de porco preto (para os amantes da boa chicha e pratos típicos à português com P dos grandes). Aquilo é que são encontros de alto gabarito em que a atenção se centra fundamentalmente na capacidade de se manter a calma (batento incessantemente com o pezinho delicado por debaixo do tampo da mesa, trauteando com os dedinhos delicados por cima do respetivo tampo ou....respirando, pois claro!), de se manter interessado nos assuntos trazidos a ecrã e, o mais importante, mantermo-nos em linha e compostinhos. Porque se vêm de lá "Oh Paulo Jorge, que é que vem a ser isto? A cama por fazer? Foi assim que te criei, hã? Foi? Tu responde-me!", ou a criança de despara num berreiro porque o brinquedo lhe fugiu para o canto da sala e "Ai que não alcanço!", a vizinha que manda vir com o vizinho ou damos conta que o café pós repasto já fez um festim e nos escorre bancada e movéis abaixo...Aí é que são elas! Que o Paulo Jorge engrossa a voz e desata num "Oh mãe pá, tô na reunião! Fecha-me a porta", a mãe sorri, metade do rostinho maquilhado (para parecer bem!) no ecrã que a outra procura desesperada por qualquer coisa que distraía a criancinha, o António Maria esboça um sorriso forçado e tosse, duas e três vezes para disfarçar a peixeirada que se armou, à hora habitual e o café? Nem se pensa duas vezes! Que os móveis do IKEA (branquinhos, branquinhos!) comprados no mês passado custaram-me os olhos da cara e o café, de saco, não se pode desperdiçar.

As reuniões zoom são como umas boas férias na Costa Vicentina, com início num choco frito à setubalense antes mesmo de passar para lavar as vistas pelos resorts em Tróia, marcha lenta. Nesses dias de reunião, há para todos os gostos no que toca à preocupação do visual. Mas uma coisa é certa: morremos todos de saudades uns dos outros, queremo-nos todos ver, ai pois queremos! Olha a Joyce continua corpulenta, bem nutrida, o Lucénio já ganhou entradas (quando desconfinarmos, volta careca!), o Tomás Bem Parecido está imenso de gordo (e vai ser pai!) e acaba agora mesmo de se sentar a Kellen. A Kellen (a assistência suspira em uníssono.)! Aquelas conversas intermináveis, as mãos que se agitam e passam pelos cabelos chocalhando as pulseiras que lhe preenchem os pulsos e braços quando fala da ida aos correios. "Encomenda do meu Peterson Claúdio!" diz abrindo muito os olhos e mostrando o embrulhinho. A assistência varia nas expressões, uns mais discretos, outros mais declarados na falta de pachorra. Procura-se urgentemente por moderadores deste tipo de ajuntamento virtual!

Estes convívios, estes convívios são a hora predileta de tantos e o terror da grande da larga maioria. Eu deste lado, com as vistas que tenho da minha janela, quero é voltar para as reuniões num frente a frente de perdigotos e mãos assentes nas mesas quando as coisas aqueciam. Isso sim, eram tempos de confraternização valente.

Na falta de melhor nestes tempos que nos abraçam (sem qualquer distanciamento!), mantenhamos a boa disposição e olhemos pela janela. Que dia lindo que se pôs para nos vermos a todos, debruçados neste parapeito digital, oh querido confinamento.

Carolina Novo

23
Fev21

Quando se faziam as malas

Carolina Novo

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Dá-me sempre aquela sensação de que fiz as malas e me pus a andar daqui para fora. Meia dúzia de cuecas, mais outro de pares de piúgas e respetivos sutiens, tudo arrumado à direita. As t-shirts, as camisolas de manga comprida, a três quartos, com padrões, sem padrões, umas de gola, outras sem gola que se veja. Uma porçãozinha considerável de tops e de calções de ganga. Saias nem vale a pena, que eu é mais vestidos ( é num instante que aquilo se veste!). Dois pares de calças e começo a deitar o olho à panóplia de acessórios e ao tamanho modesto da bolsinha que os acolhe, sempre que saio da cidade. Quer-me parecer que há uns tempos não tinha tanta coisa. Mas isto agora, a pessoa entretem-se com as compras online e excede-se!

Não me posso esquecer dos cremes, corpo, cara e mãos (só pela noitinha), nem dos produtos para o cabelo - o shampoo, o amaciador, aquele produto para por o cabelo assim ou assado, o óleo. Ah, e lavo-me com o quê? Falta-me a esponja e ainda o sabonete de  leite de cabra, o melhor para a pele (disse-me a senhora da loja!). Ainda tenho espaço para a toalha de praia, um cantinho para dois biquinis - um com padrão, outro cor única, amarelinho -, uma bolsinha com os chinelos de praia e uns ténis. As pantufas que farta de andar de pantufa estou eu!

Já me reabasteci de álcool gel (três frasquinhos, o suficiente para dois dias!), uma caixa de máscaras e os meus óculos escuros. Um casaquinho robusto, não vão os ventos mudarem e as chuvas darem ares de sua graça, e depois não tem é graça nenhuma! Pelo sim, pelo não, arranja-se espaço para um guarda chuva de mão ( é acessório que pouco me agrada e que, quando menos espero, me faz sentir a personagem principal do "Serenata à chuva" mas sem qualquer classe!). Mas a mala é de gente crescida, há que aproveitar todos os cantos. E agora fechá-la?

Sento-me na esquerda, boceja da direita. Ataco na direita, saltam-me os biquinis da esquerda. Agora o golpe é central, equilibrado. As cuecas espreitam da esquerda, a bolsinha (sufocada de traquitana!) pede scorro da direita e eu, de joelhos na parte de cima, ofegante, de língua de fora, passo a mãozinha pela testa. As primeiras gotículas! Persistência, que já me vejo, corpinho toucinho do céu, de pé no areal, saltitando de onda em onda, mordiscando o último magnum, edição limitada. Nas horas de almoço, dou-me ao luxo de leituras demoradas, estendida na toalha regateada ao Mustafá Jamil nos areais mais a sul e de nos intervalos entre páginas apreciar as vistas. E nos entretantos, dá-se o encontro do fecho com fecho que dita o final desta minha carga de trabalhos. Cai-me o comando ao chão e a realidade de estar em casa volta a abraçar-me. Dá-me uma guinada ao nível da cinturinha de vespa que (não tenho!) e mantenho-me onde estou. Isto é que é uma vida!

Da minha janela, lá está ela para confirmação de que sonhava. Avental do pescoço a meio da perna, boné vermelho pala para trás, com o ângulo de visão habitualmente perfeito para a coscuvelhice e uma expressão de indignação no rosto. Ocorre-me acenar-lhe, conforme posso, só de cabeça. Abana a dela e desaparece-me das vistas. Isto para almoçar é que vai ser bonito! Que tenho o pampo a descongelar na bancada três palmos acima de onde estou e ainda me pergunto, como é que eu vou cozer o acompanhamento?

Que saudades dos tempos em que o Francisleyson me recebia num sorriso e me estendia o pampo escalado, acabadinho de grelhar, ali mesmo, à beira mar. E as filas pelo pampo, o robalo, o arroz de marisco e as costeletinhas de vitela desalinhavam-me os chakras. Quer-me parecer que já ando toda desalinhada, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

22
Fev21

As vistas (des)confinadas

Carolina Novo

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Ao fim de semana noto uma simpatia acrescida nas pessoas, na expressão colectiva da vizinhança. Qual missa de Domingo, o corpinho veste o melhor outfit nestes dois dias por que tanto se anseia (ou anseava, que estar em casa à segunda ou ao sábado vai dar quase ao mesmo!). Ai que eu não sei se leve os Nike ou se vou com os adidas. Levo as leggings padrão listado ou, já que está sol, reponho a vitamina D nesta posta mirandesa em que cada uma das minhas pernas se tornou? Pondero, mas opte eu pelo que for, vou jeitosa! É que depois passa-me o Ivanildo do rés-do-chão pelas vistas e, para ele, as vistas têm de estar num brinco (quando se desconfina, é como ir ao Urban! Mas, na realidade, é só ir por o lixo dois quarteirões abaixo...É mais seguro!) A pessoa arranja-se, maquilha-se, toca de delinear o olho e passar o rímel (Baton, não é necessário. Fica tudo esborratado na dúvida entre se respiro ou se mantenho o lábio efeito carnudo!) Mas para lá das pessoas, há outras coisas que se enfeitam: os estendais! Ao fim de semana monta-se uma orquestra debruçada sob os quintais. Um deslizar num chiar alternado entre os andares. Cada um se enche de cores e cheiros, de padrões e peças de roupa de formato duvidoso. É ver o matulão do 2º esquerdo do prédio à direita depositar o peitoral no parapeito da janelinha e de mola em mola nascem cuequinhas de senhora delicadas às bolinhas, risquinhas, umas maiores, outras feitas de aproveitamento de tecido (poucochinho!). Lá vem a catrefada de piúgas, sutiens e toalhões de banho para equilibrar as coisas. O desequilíbrio está na falta de roupa interior masculina no estendal. A feminina, é sempre ele que estende (aqui há gaaato!) Eis que de repente do andar mais a cima, niveladinho com aquele onde habito, um lençol de padrão suave cai, preso por meia dúzia de molinhas, aterrando na careca do matulão! Temo pelos maus modos, que as pessoas andam de nervos fáceis. "Oh vizinha, deixa lá...é Sábado!", e o amargo na boca passa num instante. Mas do 3º andar? Nem o ouviu! Fones nos ouvidos, boné vermelho pala para trás, avental já gasto, a jovem perto dos oitenta volta a recolher. Contemplo a vista da janela e noto, agora mesmo, do meu lado esquerdo uma entrada tímida  nesta harmonia do deslizamento das roupas. "Bom dia!", ainda só lhe vi as mãos e a primeira colorida do montante que temos para hoje mas já lhe ouvi a voz. Sorri-me. Ainda me atrapalho nesta história de ver gente que me fale, para além da senhora do supermercado. A pessoa quase que se desabitua a lidar com o semelhante, essa é que é essa! E pior, ver-lhe os dentes, o sorriso!

Apetece-me a simpatia de fim de semana das pessoas, aquele ar contentinho de quem folgou e se passeia. Hoje até vou de calças de ganga, só para variar. E até vou vestir aquela minha camisola colorida, que já pouco reconhece as vistas desta cidade que adormeceu. Vou relembrá-la das ruas, dos sons das vozes e dos cheiros também. Vou à Padaria Portuguesa ( Ah, se vou! Que já lhe vejo a montra, sabida de uma ponta à outra!) e vou aviar aquilo que me saltar mais à vista, depois de um cafezinho e de um pastel de nata. Vou ver as "montras vivas" que desfilam e passam por mim, porque as outras continuam confinadinhas como eu. Vou descer à vida lá fora e desconfinar as roupas que já passei, mesmo que não veja o sorriso do Ivanildo do rés-do-chão. Mas deixo sempre a janela aberta, para desconfinar e dar afecto à casa!

Vou já ligar ao Anderson Vidanova, que a julgar pela falta de empatia nestas ruas e ao preço fácil dos bolos na padaria, estou por tudo. E avançamos já com as aulas fitness online!

Valham-nos as vistas das janelas (as reais ou as digitais!) em mais uma semana que chega, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

 

 

 

 

 

19
Fev21

Habilitações, grau pandemia

Carolina Novo

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Um par de molas para duas piúgas padrão riscado já postas na primeira fila do estendal e eu dou por mim a pensar na quantidade de part-times que podia ter, tudo fruto de habilitações, grau licenciatura, em que me vou profissionalizando entre estas quatro paredes e meia dúzia de janelas. Podia lançar-me num serviço de "lavandaria ao domicílio", a "Uber da Roupa Branca" em que a taxa ascendia aos pincaros quando a catrefada de traparia por lavar me ultrapassa-se, em altura, a bancada da cozinha. Acrescia 5 euros (2 de grojeta para o Elton Despachado, que ia e vinha num pé com a sacaria toda!) a cada um quatro de hora da abertura da tábua de engomar ao início do arrefecimento do ferro. Podia ainda ponderar "Paparocas confinadas ( e não confitadas, que aqui dá-se prioridade ao acondicionamento próprio da coisa!)", a "Bolt da comida chegou a casa!", tudo servido em embalagens recicladas, com base no reaproveitamento de troncos de bambú, pauzinhos de perna de pau e varetas de guarda chuva não resistentes ao inverno passado para o suporte e respectiva tampa. Para ementa? É mais do mesmo! Tudo, amontoadinho na bagageira atada ao lombo do Toperson Bola Azul, rapagão para um metro e noventa e tal do calcanhar ao cimo do cocuruto. Olho a vista da minha janela e já vou com três fileiras de cuecas intercaladas com leggings, dois pares de pijamas Primark, duas fronhas e ainda me aguardam na cesta dois lençóis, 100% algodão (se é para confinar, é para confinar às direitas!). Penso nesta minha formação caseira para gestão de emoções e tenho ideia que coach, influencer ou mesmo "youtuber comportamental" eram habilitações a ponderar explorar mais a fundo e elevar, quem sabe, ao grau de mestre. A pessoa lá porque se sente tentada a desconfinar, avançar dois lances de escadas acima e mandar três postas de pescada ao vizinho que manda vir com a mulher como se estivesse na feira do relógio aos domingos, pondera. Pondera sempre e prefere então fatiar antes duas courgetes, um reponho e alho francês (rama e tudo!) e congelar. É tudo uma questão de desfoque!

Ouço, saltitantes, as patinhas da fera (formato de alheira transmontana) que os atura descerem. Já me passa junto à porta, ouço-a. Se eu fosse ele, puxava das minhas habilitações, grau mestrado, na técnica do "latimento" e mandava-os passear. Que o Everson Tortura e a Leidi Coragem aqui em cima, têm a trela mas também têm quem a puxe. Eu cá não!

Sento-me antes à mesinha da sala, agora de toalha lavadinha e balanço-me, e deleito-me com um chocolate quente, cacau puro, acabadinho de fazer. Será que desconfinando, reúno com o Robson, tomamos café com o Claiton, passamos a palavra ao Jefferson e ainda abro um restaurante?

Acabo de "estrear" a toalhinha florida antes mesmo de mais um fim de semana, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

18
Fev21

Os assuntos dominantes

Carolina Novo

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Beberrico este meu café ( eu, que nem era destas bebidas! Ficava-me pelo chá de cidreira...), de esqueleto depositado sob este banco que, se falasse, se queixava, de tanto suportar estes 60 kg de gente. Ou mandava-me fechar a boquinha aos petiscos minuto sim, segundo não e mantinha-se a barriga saladas. Porque nós aqui, a verdade seja dita, é mais bolos! Secos, com creme, sem creme, húmidos, acabadinhos de fazer, oferecidos também caem bem. Ou aquele quadradinho de chocolate que nos toca na alma como ovos moles de Aveiro, tortas de azeitão, queijadas de Sintra ou mesmo uma dúzia de pastéis de nata, pulvilhados com canela. Nestes últimos meses, os assuntos dominantes da gente viva que por aqui anda são as marmitas do dia (é carne ou peixe? É Uber ou Glovo? Queres pré congelada ou com ingredientes frescos e do bem?), o rodopio em jogging da cozinha para a sala e da sala ao quatro para dar uma ajeitadela no lençol (Não venha de lá o Nelson Cristiano tratar-me do intercomunicador que não me abre a porta lá em baixo!), que a casa tem de estar impecável. Ainda se deixam páginas em branco para abordar temáticas como a literatura (sim minha gente, mesmo de livrarias fechadas, batemos o pé em salto alto e ainda folheamos para lá dos separadores no google ou os stories no instagram!), a catrefada de filmes que se vêem de uma assentada com intervalo para que se meta de fininho aquele episodiozinho da série na Netflix em que o Sam encosta a Caitriona à parede e agora é que são elas. Fazem-se as vontades, as deles e de uns quantos milhões que aspiram a pipoca explodida no microondas sem despregar o olho do televisor. Que nós, na predominância do estado confinado, precisamos de qualquer coisa que nos avive os sentidos e nos faça levantar os cinco quilos de glúteo (por trabalhar!) e fazer mais meio balde das popcorn para o episódio que se segue (o da série e o da vida!). Mas achavam que já se tinha folheado tudo nesta rebaldaria que se passa aqui, de teletrabalho, aulas zoom, videochamadas e alguma sanidade mental? Mantenha-se a esperança na primeira página do volume que se segue e contemple-se a vista de hoje. O que eu dava, para o Jefferson Welligton me levar à praia uma travessa de percebes, uma santola, meia dúzia de camarões de moçambique e uma cesta de pão torrado, tudo rematado com uma geladeira portátil recheada de minis, ali mesmo, com as vistas depositadas no fornecedor disto tudo.

Enquanto o Jefferson não me bate à porta? Calço as pantufas e agarro-me ao patê de sardinha para matar saudades.

Na falta de marisco, vamos pela simplicidade, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

17
Fev21

Desconfinar em confinamento

Carolina Novo

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Soube-me a panquecas com manteiga de amendoim, cada colherada daquela taça de cereais preparada com tanta dedicação, ainda não eram nove. E enquanto a devorava, com vista do primeiro parapeito da janela para estas moças formosas que se passeavam pelos campos verdejantes, pensava para comigo "Como estará a fila do supermercado?", com a impressão certa de que me esperava uma quantidade "simpática" de gente conduzindo alegremente o seu carrinho. O suspiro profundo na trajetória rumo ao "posto de abastecimento" mais próximo deu-se ao virar da esquina, que é como quem diz, assim que entro na rua do dito cujo. Quarta feira pós terça de carnaval mas as festividades agora prolongam-se! Pareciam carros alegóricos mas sem as matrafonas de Torres e o cheiro a fartura e pipocas coloridas prontas a servir. Já tinhamos veículos de quatro rodas a compor, com distanciamento milimetricamente calculado, segundas filas com proposta sob a mesa para a criação de uma terceira. E eu, repousava as minhas vistas imaginárias sob os campos verdejantes que outrora vira, enquanto alimentava este estômago rabugento com a paparoca matinal. E eles apitavam, e desfaziam as filas sem qualquer uso do pisca para avisar quem se propunha, numa impaciência desenfreada, a voltar a compô-la. Que nós queremos as coisas bem feitinhas e organizadas! Dois arranques à minha direita, um gesticular de mãos da Priscila Cristina porque não pararam na passadeira de peões, ia ela aviada de compras até à mola que lhe prende o cabelo revolto. E mesmo que fosse só a desfilar a roupa da Nike que veste...Tem toda a razão! Os que viram? Dentro dos carros, abanam as cabeças em tom de desaprovação."Aquelas vacas ao pequeno almoço é que sabem como é que se vive...", pensava eu batendo levemente com as pontinhas dos dedos sob o volante, sempre de sentidos apurados. Uma pessoa nunca sabe quando é que vem de lá o Washington Tadeu numa guinada sem aviso, ou me passa em pontas pela frente da viatura a Topásia e aí é que são elas! Aí, chamava-se o Josymar Elton e põe-se ordem no aparato.

Faço três respirações profundas. E estaciono, ali mesmo onde não incomoda quem facilmente se deixa perturbar. Que este confinamento, anda feito de nervos à flor da pele! E eu também sou de ter as minhas sensibilidades.

Mas mantenhamos a calma e a ponderação, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

16
Fev21

Produtividade em tempos de confinamento

Carolina Novo

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Quis a vontade de ser produtiva acordar-me a horas de gente trabalhadora. Passar uma água (temperatura caldo!) pelo corpo ainda adormecido e vestir a calça de ganga e a blusa catita. Porque do quarto para a sala, há gente que se cruza comigo no corredor e há que estar em bom! Cheia de ânimo, sentei-me à mesinha da sala pronta a passar a pente fino todos os afazeres anotados no meu post it amarelo. Que se mantenham as tradições de quando éramos gente de contacto e afectos sem barreiras nas faces e munidos de álcool gel que nos secam as mãos. Mas aí, ah, aí eu andava de bota pelas ruas de Lisboa! A pantufa no soalho de casa, não é bem a mesma coisa. Já vou na terceira obrigação deste dia madrugador e aquela questão diariamente persistente não me deixa avançar para a quarta, interrompendo-me. "O que é que vamos almoçar hoje Carolina?". A secção dos congelados fica a dois passos e da segunda gaveta espreita um linguado que já prevejo ser a próxima vítima, depois de mim. Sim, que isto de pensarmos em comida hora sim hora sim definha-nos!

Volto à cadeira do costume, já aquecida, mas nunca sem antes passar os olhos pela vista da janela. Que calmas estão as águas. Só no andar de cima é que as emoções se agitam, qual marmoto. Porque ela é isto e ele é aquilo, porque ela não deixa e ele também pouco se cala. São dez minutos deste fandango por cima deste meu cantinho ensolarado. E eu que já estou com um pé na quarta obrigação e não há meio de avançar. Faz-se silêncio e a agitação das águas está controlada. Cheira-me a pão torrado e agita-se-me a gula. Vou, não vou, vou, não vou.

Agarrei-me ao pão com queijo enquanto desfilo de pantufa de regresso à sala. Hei-de chegar ao desconfinamento com mais umas quantas gramas no lombinho e aí, hei-de depositar total confiança no body pump, os agachamentos e aulas de step do Anderson Vidanova. Hei-de!

 Mas até lá, até lá preciso de afecto que me preencha.

O prognóstico? Só no (possível) último dia deste nosso querido confinamento.

Carolina Novo

15
Fev21

Um cheirinho a Amor

Carolina Novo

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Hoje trago-vos o ontem que foi, que começou indeciso! Brownie ou panquecas, scones ou croissants? Tudo, para alegrar estas minhas papilas gustativas e dar-lhes toneladas de amor para que, em troca, me dêem o descanso merecido até à próxima ideia de por as mãos no livro de receitas (uma ida rápida ao google, vá!)! Eis que a coisa se deu e saiu vitorioso: o Brownie! E agora? Ponderei a Glovo, a Uber Eats ou mesmo dar uma aceleradela ao batimento cardíaco (já que falamos de amor, que bata o coração e muito!) e lançar-me ao take away em apneia garantida por trás da máscara. Mas desta vez, poupando-me a grandes complicações, simplifiquei (Ah ah ah!),  arregacei as mangas e ainda de cabelo desalinhado e pijama neste corpinho quarenteno, desafiei-me ao fogão. Enquanto derretia o óleo de côco com o cacau pareceu-me ver, ao fundo, as montras da padaria portuguesa repletas de brownies "sem chatice" e à distância de quatro digitos. Ainda mordi o lábio inferior, tentada pela imagem sedutora daquela exposição toda. Mas não! Finquei o pé na cerâmica branca da cozinha e "Hoje o brownie é de autor!", pensei eu. Do fogão passei ao lava loiça. Sim, porque houve falhas de principiante! Recuei à vista desafogada sob o "number one" desta pandemia e o tacho já se lambozava com quatro colherinhas de cacau que voltavam a derreter. Os ovos já eram omeletes, tanta era a espera por entrar em acção. Ei-los, envoltos nesta tentativa de doçaria caseira. E "Mexe remexe", numa coreografia de colher na mão, pantufa no pé. A temperatura subiu aos 180º e foi um cheirinho a amor que se deu para lá da porta do forno. E cá fora, eu ainda pensava no Claiton num movimento delicado ao abrir aquela bolsinha amarela e a presentear-me com um "Prego na peixaria" que me custou meio rim (paparoca e as Taxas!) na última encomenda. "Um cheirinho a amor deste meu forno", disse para comigo. Pulvilhado com amêndoas gentilmente laminadas, côco ralado e pozinhos de cacau, servi-o, sob a toalhinha repleta de provas dos crimes gastronómicos anteriores.

A vista deste, valeu cada suspiro, cada espera ansiosa. É aromoterapia! Há lá maior prova de amor!

Mas as montras da padaria portuguesa...!

Que ontem, tenha valido cada segundo, cheio de amor, neste nosso querido confinamento.

Carolina Novo 

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